quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Anacronia e ultra-conservadorismo


Paulo Freire(Recife/1921 - São Paulo/1997), retratado por André Koehne (Wikipédia)

Um amigo me informou que a viúva de Paulo Freire escreveu uma carta em repúdio a uma edição da revista Veja. Fiquei bastante curiosa para ler mais sobre o assunto, pois, sempre fui uma entusiasta das idéias deste pensador, cujo papel histórico é da maior importancia para quem pensa a educação do país.
Enfim, encontrei o texto e fiquei impressionada com o grau de alienação das pessoas que o escreveram. O material pareceu-me estar inserido num momento histórico diferente do atual, ainda que tenha sido publicado há um pouco mais de um mês.
Usando referênciais anacrônicos, as autoras do artigo caracterizam o Prof. Paulo Freire como "autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização".
Estranhamente, este homem dedicou toda uma vida, construiu uma carreira acadêmica, das mais sólidas, ganhou discípulos e teve suas idéias adotadas em muitos outros países, como é o caso do Chile e de Angola, às custas de um disfarce. Será possível?
Ainda que setores conservadores da academia tivessem restrições àquilo que se convencionou chamar de Método Paulo Freire, tecendo muitas críticas às suas idéias, é correto chamar todo um constructo político-pedagógico, da maior seriedade, de disfarce?
A Pontificia Universidade Católica - PUC, de São Paulo, teria criado uma Cátedra homenageando um charlatão?
Para quem quer flanar na crista da discussão estabelecida pela pós-modernidade, de qualquer sorte, jamais deveria adotar uma terminologia tão anacrônica quanto "doutrinação esquerdista", uma vez que isto remete a uma idéia de bipolaridade, atualmente, ultrapassada.
Para as autoras do artigo, os(as) docentes brasileiros(as) são acríticos em relação a alguns personagens históricos por destacar figuras como Che Guevara e Paulo Freire, quando deveriam reverenciar "o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade". (Palavras textuais)
Não seria muito mais acrítico, eleger Einstein como referência fundamental para educadores brasileiros preocupados com a nossa realidade histórica?
Ana Maria Freire, Nita, responde à altura considerando o conteúdo da revista ultra-conservador e os comentários tecidos contra Paulo Freire veiculados em "linguagem grosseira, rasteira e irresponsável".
A revista, portanto, adota uma "postura danosa" na condição de veículo midiático.
(Ir)responsabilidades a parte, ter contacto com algo desta natureza só nos remete àquele questionamento da superposição dos vários tempos da História, onde espaços reacionários são capazes de conviver com outros tantos mais, ou menos, progressistas.
Para quem gosta desta discussão segue o link:

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